Rastreadores “baratinhos” valem a pena? Análise financeira e técnica.

A ideia de ter um rastreador barato para competir no mercado, para seguradoras, associações, etc. é o sonho de todo empreendedor. Será que existe mesmo o “Santo Graal” dos rastreadores que seja bom, barato e durável, tanto quanto os rastreadores de ponta do mercado?

Pra você que está com preguiça de ler o post, já adianto a resposta – Não existe milagre. Se ficou curioso pra saber o porquê, leia o post até o final que vou explicar.


Visão Financeira

Vou começar analisando o que é necessário para construir um rastreador.

As partes mínimas necessárias são:

1- Módulo GSM/GPRS + antena

2- Módulo GPS + antena

3- Processador

4- Fonte de alimentação

5- Case (caixa)

6- Outros componentes (placa, bateria, chicotes, resistores, capacitores, diodos, etc)

PCB

Processador

Módulo GPS

Módulo GSM

 

 

 

 

 

Vamos à análise:

1- O módulo GSM é a parte mais importante de um rastreador e também a mais cara. O peso financeiro dos módulos GSM e GPS combinados na maioria das vezes ultrapassam 70% do valor total do projeto. Em equipamentos mais baratos, a primeira coisa que é repensada é o módulo GSM. Hoje existem bons módulos GSM a partir de 8 a 10 dólares dependendo do volume de produção. Esses valores são na China, ou seja, precisam ser soldados na placa e integrados com os outros componentes e se trazidos ao Brasil, adiciona-se frete e impostos.

2- Módulo GPS – Esse componente teve uma redução de preços incrível nos últimos anos, de 12 – 15 dólares, hoje um bom módulo GPS pode ser comprado por menos de 8 na China em volume. Algumas marcas oferecem serviços gratuitos AGPS, ou seja, assistência ao cold fix, acelerando significativamente o tempo de posicionamento do rastreador após o sleep mode, por exemplo.

3- O Processador pode ser muito barato, mas pode ter um valor significativo dependendo da complexidade do firmware e inteligência embarcada. Processadores de 8bits podem dar conta do recado, mas o rastreador poderá ficar limitado a poucas operações. Processadores de 32 bits mais complexos podem realizar inúmeras operações e produzir inteligência embarcada. Os valores podem variar de alguns centavos de dólar à 10 dólares ou mais. Em média, eu diria que é possível construir um bom rastreador com processadores de 2 ou 3 dólares.

4- A Fonte poderia passar despercebido se os conceitos básicos de uma boa fonte fossem seguidos. Infelizmente não é isso que é visto na prática. Para reduzir custos, os fabricantes que exploram esse mercado “de baixo custo” suprimem componentes de proteção importantíssimos. Proteções contra surtos de tensão, inversão de polaridade, aquecimento, etc. Uma fonte completa não sai por menos de 3 dólares.

5- Case ou caixa. O projeto e a fabricação da matriz é cara, mas depois de pronta, cada caixa não passa de 25 centavos de dólar.

6- Dos componentes gerais, a placa (PCB) é muito importante, pois as trilhas e as soldas é que vão determinar a durabilidade e a vida útil do equipamento. Soldas mal feitas ou placas finas, com pouca resistência mecânica tendem a durar menos. Considerando um rastreador de tamanho médio e com pouca complexidade, uma PCB + componentes custam algo próximo de 5 ou 6 dólares.

Pois é, os valores acima obviamente são estimados e podem sofrer variações de diversas maneiras, mesmo assim tem consistência suficiente para servi de base para esse artigo.

Fazendo uma análise rápida e somando os valores teríamos algo perto de USD26,75. Isso é custo de fabricação, ainda teríamos que adicionar o lucro da fábrica e impostos locais, no caso lá na China. Considerando que as fábricas na China ganham dinheiro no volume, poderíamos adicionar apenas USD2,68 por peça (10% de margem). Sendo assim teríamos um produto com razoável qualidade por USD29,43, arredondando, estamos falando de um rastreador de USD29,00 FOB*.

Agora vamos fazer as contas para trazer esse equipamento para o Brasil. Vou simular uma compra de, no mínimo 3.000 aparelhos. Como já havia dito, Chinês só faz preço com volume :).

Valor FOB………….USD29,00

Impostos…………..USD23,00

(utilizei os valores com base na lei atual, NCM correto do produto e ICMS do estado de SC, declarando valor integral da mercadora. Tudo dentro da lei)

Total………………..USD52.00, fazendo a conversão para Reais $52,00 x  R$3,25  = R$169,75

Então estamos falando que um rastreador de qualidade chega aqui por aproximadamente R$170,00. No cálculo desconsiderei dificuldades na aduana, riscos, despachante, etc. Agora é só adicionar o lucro do importador, onde poderíamos considerar entre 20 e 30%.

R$170 + 25% = R$212,00 (USD65). Leve em consideração que quem te vende é responsável pela garantia do produto, por homologações como ANATEL e suporte técnico.

Aí você me diz:

– Nossa, mas eu compro rastreador de 80 Reais no Mercado Livre!

Sim, compra mesmo, mas não suporta uma operação profissional com o mínimo de segurança e confiabilidade. Módulos de baixa qualidade tendem a apresentar variações em altas temperaturas. Um rastreador de baixa qualidade pode ficar em cima de uma bancada funcionando por 5 anos, mas pode não durar 2 meses em campo. A temperatura de um painel ou cofre de motor chegam facilmente a 60 – 70 graus. Isso já é suficiente para alterar parâmetros dos componentes que prejudicam a operação. Aí o rastreador trava, perde posição, gera eventos falsos, etc. Fora o fator temperatura, temos ainda a vibração, interferências eletromagnéticas, poeira, umidade, etc.

* FOB: Significa “Free on Board” ou “Freight on Board”, onde quer dizer que a mercadoria é entregue na porta da fábrica, ou seja, o frete é por conta do comprador.

Visão técnica

Passada a questão de valores, vamos olhar para os problemas que podem acontecer com cada componente de baixa qualidade que os nossos amigos fabricantes podem utilizar.

Módulo GSM – Módulos de baixa qualidade são fabricados por empresas muitas vezes sem controle algum de produção. O chipset é comprado, programado e, se funcionar já é o suficiente. Em contrapartida, em grandes fabricantes eles são testados e re testados exaustivamente para garantir um funcionamento estável em condições adversas. Problemas comuns em módulos inferiores são o travamento, excessivas desconexões ou problemas em lidar com as conexões TCP ou UDP, conforme for o caso. Além de todas essas possibilidades, temos algo mais grave aí. Todos já ouviram falar sobre o bloqueio de IMEIs piratas. Então, para reduzir custos, alguns fabricantes não registram seus módulos na GSMA, eles simplesmente “geram” uma numeração própria de IMEIs. Isso é ilegal e condenado pelo acordo mundial das redes GSM. Se um rastreador/telefone destes estiver na mesma rede que outro com o mesmo IMEI, isso irá gerar um conflito interno na rede e, provavelmente um dos dispositivos será desconectado. Esse é o motivo da ANATEL tentar aprovar leis neste sentido.

Módulo GPS – Esse componente é responsável por determinar a localização do rastreador. Sem ele, continuamos tendo ação sobre o veículo, mas perdemos informações importantes como velocidade, direção, localização precisa, altitude, etc. É comum o travamento de módulos de baixa qualidade. Outra ocorrência comum é o consumo de energia, que muitas vezes excede o calculado, prejudicando o funcionamento de todo o sistema.

Fonte de alimentação – A fonte é um conjunto de componentes, que podem ser suprimidos com facilidade para diminuir custos. Existem aparelhos que utilizam apenas um CI para lidar com surtos ou mesmo utilizando todos os componentes. Pode haver sub dimensionamento justamente para economia. Isso pode causar queima do equipamento por sobretensão e até falta de alimentação em algumas condições.

Placa e outros componentes – Começando pela PCB, o problema mais comum é a solda manual ou em temperatura inadequada. A corrosão prematura é um problema grave e, muitas vezes, difícil de prever enquanto o equipamento é novo. Mais adiante vou colocar algumas fotos com exemplos.

A bateria, por mais que não seja um problema grave a sua baixa qualidade, pode estufar ou até estourar, aí sim vai prejudicar todo o produto. Já vi vários casos de bateria estufada e até combustão espontânea, inutilizando o aparelho.

O que podemos tirar de conclusão é que, no mercado formal de rastreamento, é muito arriscado a utilização de produtos de baixa qualidade. As possibilidades de falhas são muitas, e se acontecer somente uma, a manutenção já paga a aparente economia na compra.

 

Separei abaixo alguns exemplos de produção de má qualidade e susceptíveis a falhas:

O destaque em azul mostra a antena GSM. Ela fica solta dentro da caixa. Uma prática dessas é absolutamente condenável dentro dos cálculos de antena. As setas vermelhas mostram as soldas, totalmente inadequadas para uma antena GSM. Esse equipamento é um MT05, conhecido por ser uma cópia do E3 da BWS.

 

As setas vermelhas mostram as soldas absolutamente mal feitas e todas já estão apresentando corrosão. A seta azul destaca a solda da antena GPS, que também apresenta corrosão. A seta amarela indica um fragmento de cabo “esquecido” ali por quem soldou o capacitor. Caso esse fragmento venha a se soltar, facilmente poderá causar um curto.

 

As setas vermelhas mostram as soldas extremamente mal feitas dos cabos de alimentação do rastreador. O destaque em azul demonstra a solta feita de um lado só dos conectores do capacitor. Por fim, as setas amarelas mostram a maneira que a antena foi manuseada. Veja que a antena tem várias marcas, mostrando o manuseio, no mínimo desleixado. Lembrando que todos os rastreadores das fotos nunca foram instalados em veículo nenhum. Esse equipamento é um GT02, o que não diz muito por que muitos equipamentos levam esse nome.

 

Esse é o famoso Accurate. São nítidas as marcas na placa por umidade, provavelmente ocasionadas por mal armazenamento ou pelo ambiente da própria produção. Esse equipamento é novo, nunca instalado, se já está assim agora, imagina depois de instalado. Eu destaco ainda negativamente a fina espessura da placa deste aparelho e a baixa qualidade do cobre, ambos dificilmente passariam nos testes que  a ANATEL exige.

 

Firmware

Além de todo o exposto acima, talvez o maior diferencial de um equipamento de qualidade seja o firmware. É o firmware que lida com todos esses componentes do rastreador. O firmware é responsável pelas funções, pelo protocolo, pela lógica e pela auto recuperação no caso de falhas. Pra quem não sabe, o firmware é o software que roda dentro do equipamento.

De nada adianta ter uma boa plataforma, chip m2m com APN privada, central 24h e utilizar um rastreador de má qualidade. Sua operação vai toda por água abaixo se apenas uma dessas partes falhar.

A máxima é antiga, mas se mantém atual: Cuidado, o barato sai caro.


Material extra

Como maus fabricantes conseguem diminuir mais ainda os custos?

A cada novo lote de um produto, peças são substituídas por inferiores e mais baratas. Chega um ponto que não existe mais margem de lucro para trabalhar, aí eles estabilizam os preços? NÃO! Eles começam a remover alguns componentes.

Coloquei a imagem abaixo para ilustrar uma realidade entre os chineses. Esse é o tal Accurate, os dois foram comprados em semanas diferentes do mesmo “fornecedor”.

Veja que houve substituição da antena GSM, que era metálica, montada sobre plástico injetado. Na “nova” versão a antena é adesiva, conectada por pressão, utilizando conector com mola (A) na superfície metálica (B) da antena adesiva. A segunda versão é, obviamente mais barata e tecnicamente inferior. Aí você compra um produto que já era ruim e vem outro ainda pior sem ninguém te avisar disso.

4 comentários

  1. GuarujaNet 29/06/2018 as 2:47 pm

    Sua explanação foi bem esclarecedora e gostaria de saber se o protocolo do E3 é igual a outro como por exemplo o Concox CRX1, pois adquiri um E3 direto da BWS e não consigo fazer ele funcionar em uma plataforma que uso, pois eles informam que eu tenho que comprar 500 peças para fornecerem o protocolo.
    Atenciosamente,

    Vicente Santos

  2. DJALMA ARAUJO 16/10/2018 as 5:45 pm

    gostei

  3. […] >>Clique aqui para conferir a matéria completa<< […]

  4. Josi Brito 06/05/2019 as 10:06 am

    Muito Bom! Parabéns pela publicação.
    Sou fornecedora de rastreadores e sempre ouço: “eu consigo mais barato”.

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